sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

El otro yo

Por Mario Benedetti

Se trataba de un muchacho corriente: en los pantalones se le formaban rodilleras, leía historietas, hacía ruido cuando comía, se metía los dedos a la nariz, roncaba en la siesta, se llamaba Armando Corriente en todo menos en una cosa: tenía Otro Yo.
El Otro Yo usaba cierta poesía en la mirada, se enamoraba de las actrices, mentía cautelosamente, se emocionaba en los atardeceres. Al muchacho le preocupaba mucho su Otro Yo y le hacía sentirse incómodo frente a sus amigos. Por otra parte el Otro Yo era melancólico, y debido a ello, Armando no podía ser tan vulgar como era su deseo.
Una tarde Armando llegó cansado del trabajo, se quitó los zapatos, movió lentamente los dedos de los pies y encendió la radio. En la radio estaba Mozart, pero el muchacho se durmió. Cuando despertó el Otro Yo lloraba con desconsuelo. En el primer momento, el muchacho no supo qué hacer, pero después se rehizo e insultó concienzudamente al Otro Yo. Este no dijo nada, pero a la mañana siguiente se había suicidado.
Al principio la muerte del Otro Yo fue un rudo golpe para el pobre Armando, pero enseguida pensó que ahora sí podría ser enteramente vulgar. Ese pensamiento lo reconfortó.
Sólo llevaba cinco días de luto, cuando salió a la calle con el propósito de lucir su nueva y completa vulgaridad. Desde lejos vio que se acercaban sus amigos. Eso le lleno de felicidad e inmediatamente estalló en risotadas.
Sin embargo, cuando pasaron junto a él, ellos no notaron su presencia. Para peor de males, el muchacho alcanzó a escuchar que comentaban: «Pobre Armando. Y pensar que parecía tan fuerte y saludable».
El muchacho no tuvo más remedio que dejar de reír y, al mismo tiempo, sintió a la altura del esternón un ahogo que se parecía bastante a la nostalgia. Pero no pudo sentir auténtica melancolía, porque toda la melancolía se la había llevado el Otro Yo.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Para além das palavras

A Pérsia, o Grande Império, o Irã - de Dario, Ciro, Xerxes... e de Rumi, com o que está para além das palavras. 


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Estranhos num mundo que nos estranha: o viajante clandestino

Por Mia Couto 

– Não é arvião. Diz-se: avião.
O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se semelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.
– Mãe: avioneta é a neta do avião?
Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admolestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, sotúrnicos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se arfogou no tropel dos motores.
Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.
Seria aquele menino a fratura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.
O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.
– Arranja-te. Estamos quase a partir.
– Então vou despedir do passaporteiro
A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se subditava. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:
– Quando for grande quero ser passaporteiro.
E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.
– Vou estudar para migraceiro.
– És doido, filho. Fica quieto.
O miúdo guardou seus jogos, constreito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?
Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do alcatrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?
O menino parou, observente, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.
– Mãe, eu posso levar o sapo?
A senhora estremeceu de horror. Olhou envergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

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Fonte: http://www.contioutra.com. Título original: 'O viajante clandestino'. 


Um desafio chamado Brasil e o próximo passo

Ciro Gomes tem percorrido o país proferindo a conferência  'O Rumo Certo para o Brasil'. De estilo direto e assertivo, choca muitas vezes por chamar 'os bois pelos nomes', não recusando polêmica. Advogado e professor universitário - tendo estudado economia na Havard Law School -, possui um largo percurso político-administrativo. Na exposição que realizou em João Pessoa, pediu que a sua fala fosse vista de forma acadêmica (mesmo sendo pré-candidato a Presidente da República), e assim  apresentou um panorama da crise brasileira numa perspectiva sócio-histórica, que remonta aos anos do surgimento do Brasil urbano, os anos 1930, com Getúlio Vargas.  Vivendo o país um deserto de projetos, como o Brasil vive, além de se encontrar atolado numa crise que abrange as mais diversas esferas, é salutar que alguém se apresente para discutir rumos para a nação. Se os rumos propostos são factíveis ou não, o debate é um canal para averiguação. De qualquer forma, trata-se de uma tarefa de 'grande fôlego', e possivelmente a sua dimensão encontre expressão nos títulos de dois livros do próprio Ciro: 'Um desafio chamado Brasil' e 'O Próximo Passo' (em coautoria com Roberto Mangabeira Unger - Havard University). 

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Entre a teoria e a prática na sociedade atual

sábado, 9 de dezembro de 2017

A nossa queda

Por Edmilson Lopes Júnior
(Sociólogo, UFRN)


Envelhecer foi se tornando obsceno. De repente, temos que ser todos eternamente jovens. Talvez Mick Jagger seja o ícone desse imaginário. Como se tudo fosse assim: a gente nasce, cresce, fica adolescente, jovem e vive como jovem e um dia morre. Balela. A gente envelhece, sim. A gente vai esquecendo coisas, também. Palavras que não vêm, conexões de eventos que demoram a ascender à consciência... Mas, para muita gente, envelhecimento foi guindado à condição de palavra proibida. Como câncer, antigamente. Lá na Várzea do Apodi, ninguém falava câncer... Pronunciava-se "aquela doença". E de forma um tanto conspiratória e amedrontada. Hoje, a velhice é negada. Um elogio grande, nestes dias, é dizer que a pessoa "continua a mesma". Eu, não, não continuo o mesmo. Para o bem e para o mal, mudei. E, sim, estou envelhecendo. E as marcas ficam em todos os lugares, embora, algumas vezes, você ainda pense que o seu corpo é aquele de antes e que vai te obedecer prontamente. Mas, não. Dia desses, subindo as escadas do meu prédio, calculei mal o próximo batente e me esparramei na escadaria. Nos batentes ficaram as compras que levava nas mãos, e, sim, um pouco do controle sobre o eu que definia como parte fundamental de "mim mesmo" (meu corpo). Sim, porque, na queda, vi-me tentando, como direi?, a mitigar os seus efeitos. Pude apenas proteger a cabeça. Não, não tive maiores consequências, exceto um pequeno corte na perna, a essa altura já sarado. A gente aceita as idades quando elas são carregadas semanticamente: idade dos arroubos, idade da paixão, idade da razão... e até uma certa "idade da maturidade". Só. Nós, os vivos, continuaremos a envelhecer, é inexorável... Ah, mas não aquelas especulações do Yuval Noah Harari, no HOMO DEUS? Tá, eu sei. Mick Jagger tá aí, quase jovem. Aliás, o ícone desse tempo que não passa. Joe Cocker, não. O cara morreu velho, que sinistro! Você vai lá e clica "Joe Cocker" no youtube e aparece um cara cantando With a little help from my friends no Festival de Woodstock e um velho senhor também cantando a mesma música. Você se choca? Sei lá, acho verdadeiro e prefiro isso ao mito que é o Mick. E a Jane Fonda? Jane Fonda é a demonstração de que envelhecemos, sim. Ah, porque estou falando de Jane Fonda? Sei lá, eu estava falando de uma queda, de envelhecimento... 

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Texto socializado pelo autor em rede social, sob o título 'A Minha Queda'. 

Lento, mas vem; o reino do tempo


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Dinamarca: bolsas de estudo para graduação, mestrado e doutorado

Imagem relacionada

Danish Government Scholarships under the Cultural Agreements prevê bolsas com duração de 5 a 12 meses.
As bolsas destinam-se a jovens qualificados interessados em se especializar em design, arquitetura, estudos ambientais e outros campos relacionados ou em estudar língua e cultura dinamarquesas. Podem se candidatar estudantes do Brasil, China, Japão, Coreia do Sul e Rússia.
O programa oferece um salário mensal de 6,5 mil coroas dinamarquesas, cerca de 3,3 mil reais. Os selecionados devem ser estudantes de instituições de ensino superior que queiram realizar intercâmbio no país europeu.
Por ano letivo, são reservados 50 meses de bolsas de estudos a estudantes brasileiros. Os tipos de benefícios disponíveis são:
Bolsas de 5 a 12 meses para estudantes doutorado/PhD.;
Bolsas de 5 a 12 meses para estudantes de mestrado;
Bolsas de 5 a 12 meses para estudantes de graduação que estudam língua e literatura dinamarquesas

Critérios de seleção do programa
A comissão que vai selecionar os candidatos dará prioridade para quem tiver projetos de pesquisa que, de alguma forma, estejam relacionados ao país. A motivação do candidato em estudar em solo dinamarquês também será avaliada. Serão solicitadas cartas de avaliação/recomendação de ex-professores dos candidatos, assim como também se considerará o patamar intelectual desses professores.

Candidatura às bolsas para estudar na Dinamarca
As inscrições vão até 1º de março de 2018. É preciso fazer o download e preencher o formulário de candidatura e enviá-lo por e-mail (kulturaftaler@ufm.dk) junto aos seguintes documentos:
Currículo;
Carta de motivação;
Programa detalhado de estudos/pesquisa na Dinamarca;
Cópia do diploma (certificada e traduzido);
Histórico escolar;
Carta da universidade de origem;
Certificado de proficiência em inglês;
Carta de admissão ou convite da universidade dinamarquesa;
Carta de recomendação e/ou duas de referência.

Veja a lista das instituições dinamarquesas que participam do programa




quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A invenção do Natal

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Templo dedicado a Mitra 

Por Alexandre Versignassi

Roma, século II, dia 25 de dezembro. A população está em festa, em homenagem ao nascimento daquele que veio para trazer benevolência, sabedoria e solidariedade aos homens. Cultos religiosos celebram o ícone, nessa que é a data mais sagrada do ano. Enquanto isso, as famílias apreciam os presentes trocados dias antes e se recuperam de uma longa comilança.
Mas, não. Essa comemoração não é o Natal. Trata-se de uma homenagem à data de “nascimento” do deus persa Mitra, que representa a luz, e, ao longo do século II, tornou-se uma das divindades mais respeitadas entre os romanos. Qualquer semelhança com o feriado cristão, no entanto, não é mera coincidência.
A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. É tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. E então era só festa. Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: o “forrobodó” era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.
A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro, era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno – pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno, na verdade, acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, o culto a Mitra chegou à Europa lá pelo século IV a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.
Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. “O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios ao deus. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes”, dizem os historiadores Mary Beard e John North, no livro Religions of Rome (“Religiões de Roma”, sem tradução para o português). Os mais animados se entregavam a orgias – mas isso os romanos faziam o tempo todo. Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo.

Solstício cristão
As datas religiosas mais importantes para os primeiros seguidores de Jesus só tinham a ver com o martírio dele: a Sexta-Feira Santa (crucificação) e a Páscoa (ressurreição). O costume, afinal, era lembrar apenas a morte de personagens importantes. Líderes da Igreja achavam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou de um mártir – já que ele só se torna uma coisa ou outra depois de morrer. Sem falar que ninguém fazia ideia da data em que Cristo veio ao mundo – o Novo Testamento não diz nada a respeito. Só que tinha uma coisa: os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século IV, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado. “Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Assim, a invenção católica herdava tradições anteriores. “Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural”, afirma outro historiador especialista em Antiguidade, André Chevitarese, da UFRJ.
Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. E a coisa não parou por aí. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.
Outra contribuição do norte foi a ideia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos.

Nasce o Papai Noel
Ásia Menor, século IV. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam uma saída: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento – não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E “viveram felizes para sempre”, sem se tornarem prostitutas. Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.
Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.
Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal). Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século XVII – daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da ideia.

Natal fora-da-lei
Inglaterra, década de 1640. Em meio a uma sangrenta guerra civil, o rei Charles 1º digladiava com os cristãos puritanos – os filhotes mais radicais da Reforma Protestante, que dividiu o cristianismo em vários segmentos no século XVI.
Os puritanos queriam quebrar todos os laços que outras igrejas protestantes, como a anglicana (dos nobres ingleses),  ainda mantinham com o catolicismo. A ideia de comemorar o Natal, veja só, era um desses laços. Então precisava ser extirpada.
Primeiro, eles tentaram mudar o nome da data de “Christmas” (Christ’s mass, ou Missa de Cristo) para Christide (Tempo de Cristo) – já que “missa” é um termo católico. Não satisfeitos, decidiram extinguir o Natal numa canetada: em 1645, o Parlamento, de maioria puritana, proibiu as comemorações pelo nascimento de Cristo. As justificativas eram que, além de não estar mencionada na Bíblia, a festa ainda dava início a 12 dias de gula, preguiça e mais um punhado de outros pecados.
A população não quis nem saber e “continuou a cair na gandaia” às escondidas. Em 1649, Charles I  foi executado e o líder do exército puritano Oliver Cromwell assumiu o poder. As intrigas sobre a comemoração se acirraram, e chegaram a pancadaria e repressões violentas. A situação, no entanto, durou pouco. Em 1658 Cromwell morreu e a restauração da monarquia trouxe a festa de volta. Mas o Natal não estava completamente a salvo. Alguns puritanos, do outro lado do oceano, logo proibiriam a comemoração em “suas bandas”. Foi na então colônia inglesa de Boston, onde festejar o 25 de dezembro virou uma prática ilegal entre 1659 e 1681. O lugar que se tornaria os EUA, afinal, tinha sido colonizado por puritanos ainda mais linha-dura que os seguidores de Cromwell. Tanto que o Natal só virou feriado nacional por lá em 1870, quando uma nova realidade já falava mais alto que cismas religiosas.

Tio Patinhas
Londres, 1846, auge da Revolução Industrial. O rico Ebenezer Scrooge passa seus Natais sozinho e quer que os pobres se explodam “para acabar com o crescimento da população”, dizia. Mas aí ele “recebe a visita de 3 espíritos” que representam o Natal. Eles lhe ensinam que essa é a data para esquecer diferenças sociais, abrir o coração, compartilhar riquezas. E o pão-duro se transforma num homem generoso.
Eis o enredo de Um Conto de Natal, do britânico Charles Dickens. O escritor vivia em uma Londres caótica, suja e superpopulosa – o número de habitantes tinha saltado de 1 milhão para 2,3 milhões na 1ª metade do século XIX. Dickens, então, carregou nas tintas para evocar o Natal como um momento de redenção contra esse estresse todo, um intervalo de fraternidade em meio à competição do capitalismo industrial. Depois, inúmeros escritores seguiram a mesma linha – o nome original do Tio Patinhas, por exemplo, é Uncle Scrooge, e a primeira história do pato avarento, feita em 1947, faz paródia a Um Conto de Natal. Tudo isso, no fim das contas, consolidou a imagem do “espírito natalino” que hoje retumba na mídia.
Outra contribuição da Revolução Industrial, bem mais óbvia, foi a produção em massa. Ela turbinou a indústria dos presentes, fez nascer a publicidade natalina e acabou transformando o bispo Nicolau no garoto-propaganda mais requisitado do planeta. Até meados do século XIX, a imagem mais comum dele era a de um bispo mesmo, com manto vermelho e mitra – aquele chapéu comprido que as autoridades católicas usam. Para se enquadrar nos novos tempos, então, o homem passou por uma plástica. O cirurgião foi o desenhista americano Thomas Nast, que em 1862, tirou as referências religiosas, adicionou uns quilinhos a mais, remodelou o figurino vermelho e estabeleceu a residência dele no Polo Norte – para que o velhinho não pertencesse a país nenhum. Nascia o Papai Noel de hoje. Mas a figura do bom velhinho só “bombaria” mesmo no mundo todo depois de 1931, quando ele virou estrela de uma série de anúncios da Coca-Cola. A campanha foi sucesso imediato. Tão grande que, nas décadas seguintes, ele se tornou a coisa mais associada ao Natal. Mais até que o verdadeiro homenageado da comemoração. Ele mesmo: o Sol.

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Fonte: https://super.abril.com.br/. Título original: 'A verdadeira história do Natal'. 


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Gosto

gostos de classe e estilos de vida na cultura

Por Vinicius Siqueira 

'Gostos de Classe e Estilos de Vida' é um texto marcante de Pierre Bourdieu. Esta resenha tem como objetivo comentar sobre alguns de seus conceitos e está totalmente aberta à modificações. Para o autor, a estrutura social internalizada e transformada em estrutura mental tem importância vital nos estilos de vida.

Habitus para definir os estilos de vida
“Às diferentes posições no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de desvios diferenciais que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência.”
O que isso significa? As condições de existência, como a posição dentro da estrutura econômica (operário, funcionário de colarinho branco, capitalista) e os grupos os quais o sujeito se relaciona, são como modelos que, de certa forma, definem os estilos de vida (ou seja, as práticas e as propriedades) de uma dada posição social que é ocupada por um dado agente social. Pierre Bourdieu não trata de sujeitos, mas de agentes sociais, ou seja, de um agente que transforma o mundo cotidianamente pela prática.
Mas essa prática não é livre, autodeterminante. Ela é mediada pelo Habitus, que é um sistema de disposições inculcadas e incorporadas socialmente. É um sistema de disposições, portanto, que projeta práticas, mas, como dito, essas práticas são inculcadas e incorporadas, ou seja, elas não são criações individuais, mas construções sociais. O habitus é, então, a estrutura social que, ao ser interiorizada pelo indivíduo, se transforma em estrutura mental. O habitus é aquilo que foi estruturado pela realidade exterior e que estrutura as práticas “interiormente”.
Se é assim, então o habitus é aquilo que gera o gosto de classe. É um princípio unificador e gerador de todas as práticas. Isso significa, mais ou menos, que, apesar de a consciência (se é que se pode utilizar essa palavra) ser algo individual (por que precisa do cérebro), ela não é livre de qualquer estruturação. Não somos, neste ponto de vista, nem totalmente livres, mas não somos, também, marionetes do ambiente.

O luxo e a necessidade
Para o autor, as formas de apreensão do mundo estão diretamente relacionadas com o distanciamento que se pode ter da realidade. Com a urgência que a posição social leva o agente a perceber e se relacionar com o mundo, ela o leva a ter uma relação típica com os bens culturais disponíveis. Melhor: leva-o a perceber estes bens culturais, como obras de arte em pintura, música e escultura, de maneira diferente.
Isso significa que, aqueles que percebem os bens culturais de maneira “legítima”, os percebem enquanto forma, já aqueles que não dominam a apreciação dos bens culturais considerados legítimos, percebem-nos enquanto função. Existe, desta forma, uma maneira legítima de apreender cada obra de arte e ela está ligada com a formação do campo artístico e com a reivindicação da arte pela arte: a maneira legítima de apreender a obra de arte é entendê-la como um produto puramente artístico, como pura forma. Esta é a maneira que os intelectuais da arte, os “bons críticos”, os mecenas e os produtores de arte legitimam seu próprio trabalho no campo artístico: arte é aquilo que é feito para si, não para servir aos interesses econômicos ou políticos de ninguém.
Já as camadas menos intelectualizadas se relacionam com a arte mais enquanto função do que enquanto forma. Isso significa que, ao invés de apreciar uma certa “aura” da obra, o que se aprecia, o que se entende, o que se observa, é sua função. “Nossa, esse quadro combinou com sua parede”, “Que bonito essa pintura colorida”, “Que feio essa pessoa estranha que parece dar um grito de desespero”.

gostos de classe e estilos de vida no quadro o grito

De um lado a outro da estrutura social
Mas o interessante deste texto de Bourdieu é como esta oposição (forma X função) vai variando e tombando para um dos lados conforme se aproxima de um extremo da estrutura social. Ou seja, os intelectuais e os “filhos da aristocracia” herdaram um capital cultural, ou seja, uma maneira legitimada do saber artístico, aprendida cotidianamente, em cada partitura no piano, a cada treino de voz, a cada ópera, que os permitem agir “naturalmente” da forma legítima, ou seja, uma forma de apreender a arte (e o mundo) que aprece até mesmo ser natural, ser dom divino.
Ao contrário, burgueses, por saberem quais são os autores legítimos, costumam responder às pesquisas os citando (principalmente os mais famosos); entretanto, quando são perguntados do por quê de se gostar de tal autor, as respostas são vazias. De sua parte, setores populares não gostam da arte “complicada”. Vale dizer que essas constatações fazem parte do trabalho de Bourdieu.

Boa vontade cultural
Aqui entra um conceito que, pra mim, é muito interessante.
“A boa vontade cultural se exprime, entre outras coisas, por uma escolha particularmente frequente dos mais incondicionais testemunhos da docilidade cultural (escolha de amigos ‘que têm educação’, gosto pelos espetáculos ‘educativos’ ou ‘instrutivos’) frequentemente acompanhados de um sentimento de indignidade ou de demissão (‘a pintura é bonita, mas é difícil’ etc.).”
A boa vontade cultural tem a ver com não com ter incorporado as práticas culturais legítimas, mas saber que elas existem e, desta forma, tentar ficar, digamos, acima da carne seca. É saber que algo é bom, mesmo que não se saiba porque é bom.
Então é possível que alguém diga que jazz é uma maravilha, sertanejo é horrível, que Dante Alighieri é gênio puro, Bukowski é gênio incompreendido, já Paulo Coelho é terrível, ou que A Doce Vida é uma obra de arte, mas Velozes e Furiosos é só um produto comercial; no entanto, no fundo, não sabe o porquê dessa manifestação. Na verdade,  uma pessoa diria tais coisas, provavelmente, porque esta é a forma legítima de julgar a arte, mas não entenderia tão profundamente o porquê disso. Essa é a diferença que Bourdieu exemplifica com o Gourmet, o sujeito que sabe o sabor correto “por natureza”, e o gastrônomo, aquele que precisou aprender durante uma jornada truncada e acelerada os referenciais legítimos da gastronomia. 
O gourmet sabe porque sabe, o gastrônomo precisa pensar, racionalizar e utilizar suas técnicas conscientemente para definir se algum prato está bom ou não.

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Fonte: http://colunastortas.com.br. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Silêncio



Por Pablo Bujalance
Málaga, 19 de outubro de 2017
[artigo publicado originalmente no ‘Diario de Sevilla’]

Doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo, o pensador francês David Le Breton (Le Mans, 1953) encarna como poucos de seus contemporâneos a melhor tradição intelectual de seu país. Na Espanha, publicou com êxito livros como El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, com os quais aposta em formas concretas de resistência diante da desumanização do presente. Pronunciou uma conferência em La Térmica, o centro de cultura contemporânea da Assembleia Legislativa de Málaga, antes da qual concedeu esta entrevista.

https://desenhares.files.wordpress.com/2017/10/david-le-breton.jpg
David Le Breton

Permita-me uma pergunta um tanto primária para começar: você defende o silêncio como forma de resistência, mas de onde nasce o ruído?
Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis. E a pressão psicológica que suportamos para os armazenarmos é enorme.

É mais fácil cultivar e fomentar o silêncio no Oriente, em relação à Europa e aos Estados Unidos, por exemplo?
Sim, na tradição japonesa existe uma noção muito importante de disciplina interior, cristalizada em sistemas de pensamento como a filosofia zen. Digamos que no Oriente há muito caminho percorrido, mas as invasões contra as quais convém opor resistência já são as mesmas.

O que você responderia a quem sustentasse que o silêncio é uma confissão de ignorância?
O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

Sobre o desaparecer de si, penso na psicologia construtivista e em autores como Jean Piaget. Seria possível formular uma psicologia da desconstrução para a personalidade?
Sim, é possível chegar a isso por meio de uma disciplina, de um exercitar-se no silêncio. Como disse antes, no Japão esta disciplina é algo muito comum. Podemos ir abrindo na nossa rotina diária espaços para o silêncio, para meditar, para nos encontrarmos com nós mesmos, e com a disciplina adequada esses espaços serão cada vez maiores. A minha melhor experiência nesse sentido, a definitiva, foi no Caminho de Santiago: quando cheguei enfim a Compostela, compreendi que eu havia me transformado completamente, depois de numerosos dias em marcha e em absoluto silêncio. Foi um renascimento.

Na França, vocês possuem uma grande tradição do caminhar com Balzac e a figura do flâneur.
Sim, o caminhar nas cidades, o vagar sem uma meta concreta. Não apenas Balzac, também Flaubert o defendia. E para os situacionistas, isso se converteu num assunto fundamental. Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior. Na Idade Média havia aqueles que se dispunham intensamente a caminhar no deserto. Porém, a prática do caminhar nas cidades encerra conotações relacionadas ao prazer. Trata-se de desfrutar daquilo que você percebe, de se deleitar com os atrativos que a cidade lhe oferece pelos sentidos. É uma atividade hedonista. Jean Baudrillard e os intelectuais de orientação sartriana também o definiram assim, como uma prática contrária ao puritanismo.

É por essa qualidade de resistência que se tacha de louco quem caminha sem rumo?
Sim, é o que acontece. E por isso o caminhar, como o silêncio, é uma forma de resistência política. No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde você deve ir, por qual caminho e por qual meio. Caminhar porque sim, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor. A marcha lhe permite advertir como é bonita a Catedral, como é brincalhão o gato que se esconde por ali, as cores do pôr-do-sol, sem qualquer finalidade, porque toda sua finalidade é esta: a contemplação do mundo. Frente a um utilitarismo que concebe o mundo como um meio para a produção, o caminhante assimila o mundo que as cidades contêm como um fim em si mesmo. E isso, claro, é contrário à lógica imperante. Daí a vinculação com a loucura.

Entretanto, com a sua transformação em centros comerciais, e penso no próprio coração de Málaga, as cidades não se tornaram os piores inimigos dos caminhantes?
Sim, você tem razão. De fato, todas as grandes cidades, seja Paris ou Tóquio, já se transformaram em superfícies comerciais. É muito importante que as cidades encontrem um equilíbrio entre os recursos que garantam a sua prosperidade e a qualidade de vida dos que nelas residem. De outra maneira, as cidades tornam-se entidades desumanizadoras. O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico.

De volta ao silêncio: a indústria cultural não foi um dos principais canais do ruído no último meio século?
Sim, é isso. Estou de acordo. Em meu livro El silencio me ocupava desse assunto. Porque, afinal de contas, a indústria cultural vem a ser uma forma do poder político. Uma atividade cultural teria de estar encaminhada para que cada um se encontrasse consigo mesmo, se reconhecesse em seu interior e iniciasse um diálogo íntimo sem sair de si, valendo-se dos instrumentos que a cultura deveria pôr ao seu alcance. Contudo, em vez disso, temos uma cultura que é cada vez mais de massas e menos de pessoas, na qual é impossível se reconhecer. Também é importante opor resistência às formas invasivas da cultura que permeiam o silêncio.