quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

New year and Beatles forever - Imagine

Tudo bem, façamos uma concessão à repartição do tempo levada a cabo pela civilização ocidental. Mas sem esquecer os tempos e calendários de outros povos. Que não estão a terminar 2014 e a iniciar 2015. Ao dizer assim, cumprimento aos que por este espaço têm passado, desejando-lhes um 2015 pleno de êxitos. Qual mensagem para este momento? Yeah, Beatles forever... Ou melhor, John: Imagine.  Aí abaixo, fica o apelo sempre renovado. 


Imagine não haver o paraíso

É fácil se você tentar
Nenhum Inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu

Imagine todas as pessoas
Vivendo o presente

Imagine que não houvesse nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também

Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo será como um só

Imagine que não ha posses
Eu me pergunto se você pode
Sem a necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade dos homens

Imagine todas as pessoas

Partilhando todo o mundo

Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só



sábado, 27 de dezembro de 2014

Erich Fromm encontra Freud: arte de amar e sexualidade


El amor es exclusivamente un acto de la voluntad y por lo tanto, en esencia, no importa en demasiado quién son las dos personas.
(Erich Fromm)

page
Erich Fromm e Sigmund Freud

Por Ivonaldo Leite

Quando foi tomado pela ideia de eterno retorno, no caminho de Engadine, Nietzsche comoveu-se até as últimas lágrimas, assim como Jung, ao lado da jovem Sabina Spielrein, na ópera, não sustentou o choro. Em ambos os casos, variações de um mesmo sentimento de satisfação, em fronteira com o  amor, presente, por exemplo, na exclamação de Jung quando foi indagado por Sabina sobre a razão das suas lágrimas: Felicidade, exclamou ele[1].   
O amor, portanto, em suas diversas variáveis, ressalte-se, comporta dimensões que não se coadunem com “traduções” simplistas. Atento a isso, Erich Fromm desenvolveu uma apreciação crítica da abordagem freudiana sobre o referido tema, que, como é sabido, em Freud, incide fundamentalmente sobre a sexualidade. Aponta Fromm que Freud cometeu o erro de ver o amor “exclusivamente como expressão – ou uma sublimação – do instinto sexual” [2]. Mais ainda, prossegue ele: “Freud chegou a supor que a sexualidade, per se, é masculina, o que o fez ignorar a sexualidade feminina em sua especificidade. Expressou tal ideia na obra Uma Teoria Sexual, dizendo que a libido possui regularmente uma natureza masculina, trate-se da libido masculina ou feminina”[3].
Posto isto, From passa a apresentar uma definição do amor. Conforme esta, o amor não é essencialmente uma relação com uma pessoa específica; é uma atitude que determina o tipo de relação de uma pessoa com o mundo como totalidade, não com um “objeto” amoroso. Se uma pessoa, enfatiza ele, ama outra e é indiferente ao resto dos seus semelhantes, seu amor não é amor, mas sim uma relação simbiótica, ou um egoísmo ampliado. Continua o autor de A Arte de Amar:  a maioria das pessoas supõe que o amor é constituído por um objeto, não por uma capacidade; “chegam a crer que apenas o fato de se amar uma pessoa prova a intensidade do amor. Como não compreendem que o amor é uma atividade, um poder da alma, acreditam que ele pode ser concebido como um objeto”[4].  
Isto significa, enfatiza ele, que o amor, em todas as suas formas (maternal, paternal, fraternal, erótico), deve ser compreendido como sendo consubstanciado por alguns elementos básicos interligados, como, por exemplo, cuidadoresponsabilidade e conhecimento.
cuidado refere-se à atenção, à ternura, estando relacionado com a responsabilidade, no sentido de manter-se atento para responder às necessidades do/a outro/a. Mas sem que isso implique qualquer grau de possessividade, de dominação, sobre o outro. Daí decorre o imperativo da ideia de respeito ao modo como o/a outro/a é, o que, por outro lado, aciona a noção de conhecimento, pois, para se respeitar como alguém é, requer-se que se conheça esse alguém.
Dessa forma, Fromm questiona novamente o ‘pai da psicanálise’: “o que Freud paradoxalmente não tem em conta é o aspecto psicobiológico da sexualidade, a polaridade entre os sexos e o desejo de resolver essa polaridade por meio da união. Esse curioso erro provavelmente foi facilitado pelo extremo patriarcalismo de Freud”[5].  Seguindo esse encadeamento, realça que o amor genuíno não é um afeto no sentido de que alguém nos afeta, mas sim a potencialização da própria capacidade de amar e que tende ao crescimento e a felicidade da pessoa amada.
Ou seja, amar alguém é a realização e a concentração do poder de amar. A afirmação básica contida no amor dirige-se à pessoa amada como uma internalização das qualidades essencialmente humanas. E então, infere Fromm, o amor é uma arte, sendo fundamental para o seu êxito a superação do egoísmo/narcisismo, pois egoísmo e amor se opõem, na medida em que “as pessoas egoístas são incapazes de, verdadeiramente, amarem as demais pessoas”[6].  E talvez não amem nem mesmo a si próprias, visto que vivem ansiosamente preocupadas em arrancar da vida as satisfações que elas mesmas se impedem de ter.
Da ‘tese do amor como arte de amar’, temos um libelo crítico a Freud, que, assinala Fromm, desconsidera as diversas variáveis do amor e o reduz “basicamente a um fenômeno sexual”[7]. Procurando evidenciar o suposto reducionismo do ‘pai da psicanálise’, ele coloca em realce o modo como esse trata do amor fraterno: “para Freud, a experiência do amor fraterno é um produto do amor sexual, mas no qual o instinto sexual se transforma em um impulso com finalidade inibida”[8]. Para o autor de A Arte de Amar, o pensamento freudiano padeceu de uma influência de um determinado materialismo predominante no século XIX, o qual levava a crer que todos os fenômenos mentais se encontravam nos fenômenos fisiológicos. Por conseguinte, Freud considerou o amor, o ódio, a ambição, etc., como outros tantos produtos das diversas formas do instinto sexual. Não conseguiu ver que  a realidade básica está na totalidade da existência humana, isto é, em primeiro lugar, na situação humana comum a todos os seres humanos; e em segundo lugar, na prática de vida condicionada por uma estrutura específica de sociedade.
Estamos, enfim, diante de duas posições clássicas no seio da analise social em torno de algo nada irrelevante: através da abordagem do amor, a busca da fusão interpessoal para transcender as vidas individuais. As lágrimas de Jung ao lado de Sabina Spielrein. Felicidade. A leveza do ser proporcionada pela arte de amar.

  
Notas


[1] Trata-se de uma das cenas mais significativas do filme Jornada da Alma.

[2] FROM, Erich. El arte de amar: una investigación sobre la naturaleza del amor.  Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 55.

[3] Ibidem, p. 56.

[4] Ibidem, p. 67-68.

[5] Ibidem, p. 55-56.

[6] Ibidem, p. 85.

[7] Ibidem, p. 121.

[8] Ibidem, p. 121


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

No teu poema


Férias, natureza, literatura e poesia 

Por Carlos do Carmo

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Uma nova Guerra Fria: Anuncia-se a 3ª Guerra Mundial?

A resposta para essa indagação, segundo o cientista social Boaventura de Sousa Santos, é de que existem evidências de que está a ser maturado um novo conflito em escala mundial. Provocado pelos Estados Unidos, com a cumplicidade da Europa, tendo como alvo direto a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto seria a Ucrânia. No tabuleiro da geopolítica, o jogo é bruto. Entraremos, outra vez, num catastrófico período de guerra total? É aguardar os desdobramentos dos fatos e os analisar. Abaixo, o texto onde Boaventura aborda a questão. 


Por Boaventura de Sousa Santos 

Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial, se entendermos por “mundial” uma guerra que tem o seu teatro principal de operações na Europa e se repercute em diferentes partes do mundo. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da Europa. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 de dezembro a Resolução 758 que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação à Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, a Europa é um participante ativo, ainda que subordinado aos EUA, e assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.

Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. O orçamento da Rússia para o próximo ano  foi elaborado com base no preço do petróleo à razão de 100 dólares por barril. A redução do preço combinada com as outras sanções e a desvalorização do rublo agravarão perigosamente o déficit orçamental. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela, Irã e Equador). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.
O segundo componente é o controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland: “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagamos para isso”.
O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitime a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo mediático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?
Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando países da UE membros da NATO podem estar a ser conduzidos, à revelia dos cidadãos, a travar uma guerra contra a Rússia em benefício dos EUA, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas de conforto enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?


As razões da insanidade 
Para entender o que se está a passar é preciso ter em conta dois fatos: o declínio dos EUA enquanto país hegemônico; o negócio altamente lucrativo da guerra. O declínio do poder econômico-financeiro é cada vez mais evidente. Depois do 11 de Setembro de 2001, a CIA financiou um projeto chamado “projeto profecia” destinado a prever possíveis novos ataques aos EUA a partir de movimentos financeiros estranhos e de grande envergadura. Sob diferentes formas, esse projeto tem continuado, e um dos seus participantes prevê o próximo crash do sistema financeiro com base nos seguintes sinais: a Rússia e a China, os maiores credores dos EUA, têm vindo a vender os títulos do tesouro e em troca têm vindo a adquirir enormes quantidades de ouro; estranhamente, este títulos têm vindo a ser comprados em grandes quantidades por misteriosos investidores belgas e muito acima da capacidade deste pequeno país (especula-se se o próprio banco de reserva federal não estará envolvido nesta operação); aqueles dois países estão cada vez mais a usar as suas moedas e não os petrodólares nas transações de petróleo (todos se recordam que Saddam e Kadafi  procuraram usar o euro e o preço que pagaram pela ousadia); finalmente, o FMI (o cavalo de Troia) prepara-se para que o dólar deixe de ser nos próximos anos a moeda de reserva e seja substituída por uma moeda global, os SDR (special drawing rights).
Para os autores do projeto profecia, tudo isto indica que um ataque aos EUA está próximo e que para este se defender tem de manter os petrodólares a todo o custo, assegurando o acesso privilegiado ao petróleo e ao gás, tem de conter a China e tem de debilitar a Rússia, idealmente provocando a sua desintegração, tipo Jugoslávia. Curiosamente, os “especialistas” que veêm na venda da dívida uma atitude hostil por parte de potências agressoras são os mesmos que aconselham os investidores norte-americanos a procederem da mesma maneira, isto é, a desfazerem-se dos títulos, a comprar moedas de ouro e a investirem em bens sem os quais os humanos não podem viver: terra, água, alimentos, recursos naturais, energia.
Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa devido à superioridade dos EUA na condução da guerra, no fornecimento de equipamentos e nos trabalhos de reconstrução. E a verdade é que, como escreveu Howard Zinn, os EUA têm estado permanentemente em guerra desde a sua fundação. Acresce que, ao contrário da Europa, a guerra nunca será travada em solo norte-americano, salvo, claro, o caso de guerra nuclear. Em 14 de Outubro de 2014, o New York Times divulgava o relatório da CIA sobre o fornecimento clandestino e ilegal de armas e financiamento de guerras nos últimos 67 anos em muitos países, entre eles, Cuba, Angola e Nicarágua. Esta notícia serviu para que Noam Chomsky dissesse em “The Laura Flanders Show” que aquele documento só podia ter o seguinte título: “Yes, we declare ourselves to be the world´s leading terrorist state. We are proud of it” (“Sim, declaramos que somos o maior estado terrorista do mundo e temos orgulho nisso”).
Um país em declínio tende a tornar-se caótico e errático na sua política internacional. Immanuel Wallerstein refere que os EUA se transformaram num canhão descontrolado (a loose canon), um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para ele próprio e para os outros. A consequência mais dramática é que esta irracionalidade se repercute e intensifica na política dos seus aliados. Ao deixar-se envolver na nova guerra fria, a Europa, não só atua contra os seus interesses económicos, como perde a relativa autonomia que tinha construído no plano internacional depois de 1945. A Europa tem todo o interesse em continuar a intensificar as suas relações comerciais com a Rússia e em contar com esta como fornecedora de petróleo e gás. As sanções contra a Rússia podem a vir a afetar mais a Europa que a Rússia. Ao alinhar-se com o militarismo da OTAN onde os EUA têm total preponderância, a Europa põe a economia europeia ao serviço da política geoestratégica dos EUA, torna-se energeticamente mais dependente dos EUA e dos seus estados satélites, perde a oportunidade de se expandir com a entrada da Turquia na União Europeia. E o mais grave é que esta irracionalidade não é o mero resultado de um erro da avaliação dos interesses dos europeus. É muito provavelmente um ato de sabotagem por parte das elites neoconservadoras europeias no sentido de tornar a Europa mais dependente dos EUA, tanto no plano energético e económico, como no plano militar.
 Por isso, o aprofundamento do envolvimento na OTAN e o tratado de livre comércio entre a UE e os EUA (parceria transatlântica de investimento e comércio) são os dois lados da mesma moeda.  
Pode argumentar-se que a nova guerra fria, tal como a anterior, não conduzirá a um enfrentamento total. Mas não esqueçamos que a primeira guerra mundial foi considerada, quando começou, uma escaramuça que não duraria mais de uns meses. Durou quatro anos e custou entre 9 e 15 milhões de mortos.  
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Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Coluna/A-Terceira-Guerra-Mundial-/32494


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O início dos anos de solidão: Cruz da Serra



Leont Etiel
Quando John Milk experimentou pela primeira vez a aguardente à base de manipueira de mandioca, sentiu qualquer coisa como um feitiço. Ele, que sempre estivera habituado com os vinhos brancos, tintos e verdes do Norte de Portugal, viu-se tomado por algo distinto.
Não precisamos dizer, mas lembramos, que a fabricação do referido líquido era de responsabilidade da sua costela, a morena Tayuan, a cabocla que pouco sabia, mas muito fazia, encontrada por John em puro estado de natureza, tão logo ele pôs os pés em Cruz da Serra. Já se via, pensava John, diferente das suas suspeitas iniciais, que Cruz da Serra não seria a Santa Cruz do Deserto. De toda forma, ele não teve como deixar de pensar que aquela sensação que estava a sentir - com a aguardente à base de manipueira - era parte de um ritual de feitiçaria, praticada pelos de Tayuan, como forma de prender as pessoas. Drogas nativas e bruxaria, conjecturava John, homem que recebera uma rígida educação cristã, revelamos agora, ministrada no Norte português, designadamente na cidade de Braga. Ele ficou ainda mais intrigado ao saber que os de Tayauna praticavam um ritual que consistia em - quando nascia uma criança - matar um animal nas imensas florestas de Cruz da Serra para que a referida criança fosse banhada com o sangue do animal morto.
Contudo, havia qualquer coisa que começava a prender John naquele lugar. Não há como negar que o ‘jeito lusitano de ser’, segundo as investigações gilbertofreyrianas, conforme mais tarde se soube, contribuíra para John se acostar a Tayuan e se misturar com os dela, iniciando então a mestiçagem em Cruz da Serra. Ainda sob os efeitos da droga nativa, que sabemos não ser alguma erva, como a jurema (também usada pelos de Tayuan), mas o líquido manufaturado da mandioca, John, que não devemos esquecer ser o Milk, fez planos. Com um graveto de caju, que era como os índios chamavam um pequeno pedaço de madeira da mencionada fruta, John fez riscos sobre o chão. Olhando para as curvas das serras de Cruz da Serra, também John pensava nas curvas da morena Tayuan. E assim inspirava-se para fazer a cartografia do lugar. Pá, daqui já não saio, falava de si para si.
Temos que dizer que toda essa cena, de ingestão da droga nativa, advinda da manipueira da mandioca, teve lugar durante uma refeição. Quando John imaginava que o estoque de surpresas já havia acabado, não deixou de ser surpreendido com outra novidade: finda a refeição, os de Tayuan faziam circular outro líquido, preto, que chamavam ‘morto no pau’. Com curiosidade aguçada, John quis saber o que era. Empreitada comunicativa difícil, pois, não é nem preciso dizer, mas lembramos, John Milk falava português, língua que Tayuan e os demais nativos nada entendiam e até pensavam ser uma música cantada por aquele homem branco em homenagem aos deuses do seu lugar. É evidente que essas barreiras linguísticas não foram obstáculo para que os corpos de John e Tayuan se encontrassem, pois faz tempo que não existem barreiras para o amor, visto que a sua linguagem é universal e é mediada pela gramática do olhar e do sentir. Mas, a propósito do líquido preto que circulava, finda a refeição, em tradução aproximada, dos resquícios ainda presentes em terras Xukurus, ficou-se a saber que a denominação ‘morto no pau’ era a designação nativa do produto artesanal que depois chamou-se café.  
John então, ébrio pela droga nativa advinda da manipueira da mandioca, e agora acalentado por esse outro líquido, fez riscos apressados sobre o chão e completou a cartografia de Cruz da Serra. Levantou os braços aos céus e sentiu uma imensa vontade de viver. Era o início dos anos de solidão. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

'Transformações da intimidade' e novas configurações amorosas

O tema não é desconhecido do enfoque da ciência social, mas, nos últimos tempos, as abordagens a respeito das configurações amorosas e da sexualidade têm aumentado consideravelmente. Nessa perspectiva, tem contribuído o cientista social britânico Anthony Giddens. O texto aí abaixo, da Profa. Maria de Fátima Araújo (UNESP), originalmente intitulado 'Amor, Sexualidade e Casamento: Velhas e Novas Configurações', é paradigmático ao tratar das transformações da intimidade. Neste tema, como em outros, a superação do mero moralismo (ou falso moralismo) é um fato alvissareiro. 

Foto: Amantes (31 x 18). Detalhe da decoração do teto (em madeira) do claustro da abadia de Sto. Domingo de Silos (século XV - Burgos).

Primavera, desabrochar das flores.1 Um jovem casal de enamorados se encontra em um ambiente natural - lugar por excelência das aventuras amorosas.2 Neste pequeno pedaço de terra, nesta “ilha do amor”, eles estão cercados de plantas, imensas, exóticas, que circundam o espaço. O ambiente transpira paixão. O ar está vermelho, quente. Os rostos estão colados, postura típica dos enamorados medievais; os pés unidos do jovem sugerem que ele está sentindo intensamente o contato físico de sua amada; as vestes têm o mesmo bordado e a mesma cor, indicando a harmonia e a perfeição do amor do casal, pois na Idade Média a relação entre os personagens na pintura se baseava na alternância rítmica das cores.3

Leia mais em: http://www.ricardocosta.com/artigo/entre-pintura-e-poesia-o-nascimento-do-amor-e-elevacao-da-condicao-feminina-na-idade-media
Amantes - Detalhe da decoração do teto (em madeira) do Claustro da Abadia de
Santo Domingo de Silos (Século XV - Burgos)


Por Maria de Fátima Araújo 

A união que associa amor, sexualidade e casamento é uma invenção da era burguesa. O amor-sexual, amor-paixão, como fundamento do casamento, surgiu na modernidade e, com ela, trouxe um elemento revolucionário, pois enunciava uma nova ordem das coisas. Nesse cenário, o amor vai percorrer uma longa trajetória até chegar à condição de força “irresistível”, sempre pronta a desembocar no casamento, como capturaram as telas de Hollywood. Passando pelo impulso dramático shakespereano, no século XVI, essa trajetória tem seu ponto de chegada no século XVIII, no bojo da revolução burguesa e nas idéias de liberdade individual. Em torno do novo ideal de conjugalidade instaurado, criaram-se muitas expectativas e idealizações, entre elas a idéia de casamento como lugar de felicidade onde o amor e a sexualidade são fundamentais. Desde então, a instituição casamento, moldada pelas determinações econômicas, sociais, culturais, de classe e gênero tem assumido inúmeras formas.
Hoje, os mesmos movimentos de mudança levam os casais a reverem suas idealizações sobre o casamento, o amor e a sexualidade. Novas formas de amar e se relacionar estão sendo construídas para responder às exigências de uma sociedade onde os valores e as regras econômicas e sociais estão sempre em mutação.


O Amor Romântico e o Casamento Moderno
O amor e o casamento, tal como o conhecemos hoje, surgiu com a ordem burguesa, mas só ganhou feição a partir do século XVIII, quando a sexualidade passou a ocupar um lugar importante dentro do casamento. O amor, no sentido moderno de consensualidade, escolha e paixão amorosa, não existia no casamento, sendo, em geral, vivenciado nas relações de adultério, e a sexualidade não era vivida como lugar de prazer, sua função específica, era a reprodução. Da antigüidade à idade média, eram os pais que cuidavam do casamento dos filhos. O casamento não consagrava um relacionamento amoroso. Era um negócio de família, um contrato que dois indivíduos faziam não para o prazer, mas a conselho de suas famílias e para o bem delas. O principal papel do casamento era servir de base a alianças cuja importância se sobrepunha ao amor e à sexualidade. Escolha e paixão não pesavam nessas decisões, e a sexualidade para a reprodução era parte da aliança firmada.
Trabalhos realizados por Lèvi-Straus (1976) mostram que, nas sociedades arcaicas, a aliança também é um fator determinante no casamento. A união se justifica muito mais pela necessidade de reciprocidade imposta pela divisão sexual do trabalho do que pela satisfação sexual. A aliança é uma forma de intervenção do grupo sobre bens considerados escassos e essenciais para a sobrevivência, e baseia-se em um sistema de trocas, cujas regras marcam a origem do casamento. A proibição do incesto é sobretudo uma regra de reciprocidade que obriga a formação de alianças não só através da troca de bens, como também de mulheres. Para firmar esses laços, os grupos vão recorrer à regra da exogamia, que interdita o casamento com um membro da família. O contrato é estabelecido entre homens e a mulher é o objeto da troca feita por eles.
Nas sociedades ocidentais, a Igreja teve e tem - hoje bem menos -, uma forte influência no casamento, mas nem sempre foi assim. Vejamos um pouco dessa trajetória. Até o século V, a união dos casais e a celebração das núpcias não tinha interferência do clero. Era um ato privado ocorrido entre os nobres, tendo como função a transmissão da herança, de títulos e a formação de alianças políticas. Escolha e paixão não pesavam nessas decisões. Vainfas (1986), descreve o ritual revelando o papel de cada uma das partes: começava com a promessa de casamento no ato da desposatio ou pactum conjugale - precursor do noivado atual. A cerimônia, na casa da futura esposa, reunia parentes dos noivos e testemunhas. Trocavam-se palavras e bens. O pai da moça transferia a tutela de sua filha para o marido e este retribuía a doação com a entrega de uma donatio puellae (garantia do contrato). Sendo a mulher parte do patrimônio familiar, sua entrega a um homem selava a união de duas famílias reais ou nobres. O rito nupcial propriamente dito acontecia numa festa na casa do noivo e o momento mais importante ocorria no quarto nupcial. Ao redor do leito se reuniam numerosas testemunhas, e o pai do rapaz celebrava a união. Todos testemunhavam a intenção da união carnal e da procriação. A fecundidade era indispensável ao casamento, assim como a fidelidade absoluta da mulher, de modo que o adultério feminino implicava o abandono ou mesmo a morte da esposa transgressora. A esterilidade, por sua vez, levava ao repúdio, muito comum entre os nobres medievais .
Essas regras valiam para aqueles a quem cabia perpetuar a linhagem, responder pela transmissão da herança e exercer o poder, não se estendendo a todos os filhos. Os descendentes mais novos podiam seguir o caminho do clero ou estabelecer outros tipos de união que lhes permitiam satisfazer a voluptas. Segundo Duby, citado por Vainfas, essas uniões conjugais chamadas de Friedelehe eram usadas para “disciplinar a atividade sexual dos rapazes sem comprometer definitivamente o destino da honra”. Eram uniões quase sempre temporárias, mas não menos formais. O pretendente pagava o “preço da virgindade” ao pai da moça e tudo se fazia com solenidade. A mulher era, neste caso, “muito mais emprestada que dada”. Dessas uniões nasciam os “bastardos”, herdeiros menos assegurados, mas que, por muito tempo, não foram discriminados e, às vezes, até contemplados com títulos de terras.
A expansão do cristianismo, a partir do século V, e a queda do Império Romano vão abrir caminho para que aos poucos a Igreja passe a estender seu poder sobre o casamento, ao mesmo tempo que tentava submeter reis e cavaleiros ao seu domínio. Vainfas registra que na Gália, em torno do século VI, a benção do casal à porta do quarto era feita por um padre. Mais tarde, essa prática vai se difundir e se aperfeiçoar com a presença do clérigo diante do leito, a fim de incensá-lo e aspergi-lo com água benta. Era uma intervenção modesta - num momento em que ainda se oscilava entre a moral dos padres e a dos cavaleiros - perto do que viria a acontecer nos tempos seguintes. Séculos mais tarde, a Igreja vai instituir o casamento como o único espaço legítimo para uso da sexualidade, com o objetivo exclusivo da procriação. Até aí foi um longo caminho desde o início do cristianismo, quando parcelas da Igreja se dividiam entre aceitar e condenar o casamento. Marcados pelo ascetismo, os ideais cristãos pregavam a virgindade, a castidade e a continência. A renúncia aos prazeres da carne era necessária para ganhar o reino dos céus. Entre as fontes básicas dessa pregação, diz Vainfas, encontra-se a exortação do apóstolo Paulo aos coríntios, recomendando aos homens que permanecessem celibatários, às viúvas que se mantivessem castas e às solteiras que ficassem virgens.
Tais ideais de condenação absoluta do desejo e do prazer não se sustentaram por muito tempo. A Igreja acabou aceitando o casamento como um “freio” para os libertinos. Falando sobre o casamento na Epístola aos coríntios (I Cor., VII, 1), Paulo diz: “que cada homem tenha uma mulher, e cada mulher, um homem. Melhor seria que ficassem castos, mas se não podem se conter, casem-se. É melhor casar do que arder.” O casamento era recomendado como uma “concessão” e não como um mandamento, somente para evitar a “impudicia”.
A sacralização do casamento pela Igreja só aconteceu por volta do século XII e foi só no século XIII que a normatização da moral cristã se estabeleceu, instituindo o sacramento do matrimônio, tornando-o monogâmico e indissolúvel. A partir de então, o ritual eclesiástico transferiu o ato matrimonial da casa, seu local tradicional, para a Igreja, e a cerimônia passou a ser conduzida por um padre.
O casamento foi então instituído pela Igreja como lugar legítimo para uso dos prazeres desde que voltado para o seu fim natural: a procriação. Os teólogos instituíram regras básicas fundamentadas em três eixos principais: 1) a imposição da relação carnal (dívida conjugal) como algo obrigatório no casamento, sem a qual ele não teria sentido; 2) condenação de todo e qualquer ardor na relação carnal entre os cônjuges; e 3) a minuciosa classificação dos atos permitidos ou proibidos, tendo em vista a função procriadora.
Segundo Flandrin (1987), para a maioria dos historiadores, a vida sexual, tanto dos casados como dos solteiros, foi regida pelos preceitos da moral cristã, pelo menos até o século XVIII ou mesmo até a Revolução Francesa. Restringindo a sexualidade ao casamento e à procriação, a moral cristã proibia qualquer método contraceptivo e considerava pecado toda atividade sexual fora do matrimônio.
A dessacralização do poder da Igreja se inicia com a revolução burguesa, que vai arrancar fora os véus da ilusão religiosa. Como diz Marx no Manifesto do Partido Comunista, perde-se o halo, símbolo primordial da experiência religiosa. “Tudo que era sólido e estável evapora-se, tudo que era sagrado é profanado, e os homens são, finalmente, obrigados a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas”(Marx & Engels, 1990, p.79). A vida é inteiramente dessantificada. Entra em cena “a ética protestante e o espírito do capitalismo”, como bem descreve Weber (1967). O destino do homem passa a ser regido pela nova organização social.
Uma mudança radical dos valores até então vigentes começa a se instaurar com a nova ordem, sublevando e renovando os modos de vida pessoal, social e familiar. O sistema daí resultante assume como característica principal uma permanente capacidade de mudança. O mundo - público e privado - entra num processo de constante transformação.
As grandes mudanças no casamento, segundo Ariès (1987), se iniciam com a modernidade. A valorização do amor individual, presente na ideologia burguesa, estabelece o casamento por amor, amor-paixão, com predomínio do erotismo na relação conjugal. Esse novo ideal de casamento impõe aos esposos que se amem ou que pareçam se amar e que tenham expectativas a respeito do amor e da felicidade no matrimônio. Essa imposição teve muitas conseqüências e contradições. Uma delas é que acabou criando uma armadilha para os casais na medida que se acentuaram as “idealizações” e conseqüentemente os conflitos resultantes da desilusão pelo não atendimento das expectativas.
Até o século XVIII, e não só na cultura ocidental, havia uma diferença básica entre o amor no casamento e o amor fora do casamento. Vários textos da cultura judaica e grega mostram que o amor não era necessário ao casamento, cuja função principal era a procriação.
Elqana (I Sam 1, 4-19) possuía duas mulheres: uma, Ana, que ele amava (.....), mas que era estéril (......); a outra, que ele amava menos, era fecunda e tinha filhos. Ela zombava cruelmente de sua rival infecunda. Apesar da sua preferência, Elqana tinha o costume, quando distribuía as carnes assadas do sacrifício, de dar várias porções à mãe de seus filhos e apenas uma à sua bem-amada. Ana ficava magoada e chorava. E então Eqana lhe disse com ternura: ‘Ana, por que choras e não te alimentas? Por que estás infeliz? Será que eu não valho para ti mais de dez filhos? ( texto judaico citado por Ariès, 1987, p.151).
Antes da expansão do cristianismo, a moral estóica defendia a procriação como finalidade e justificação do casamento. Para os estóicos, um homem sábio devia amar sua mulher com discernimento e não com paixão. Os homens deviam se apresentar às esposas como maridos e não como amantes. A regra básica do código moral estóico defendia o amor-reserva no casamento e o amor-paixão fora do casamento. Os cristãos se apropriaram da moral estóica e foram mais além na condenação dos prazeres.
Expulso do casamento, o amor proliferou nas relações ilícitas, estilizado pelos cavaleiros, poetas e trovadores, vivido intensamente por homens e mulheres em toda parte. O amor cortês cantado pelos trovadores era diferente do amor cavalheiresco. O amor cavalheiresco era quase sempre ligado a um adultério carnal ou a uma proeza que resultava no casamento. O amor cortês era um amor adúltero espiritual que nunca implicava no casamento dos amantes. O amante dessas histórias era sempre socialmente inferior à dama cortejada e se dispunha a qualquer sacrifício para provar o seu amor. Era um herói disposto ao sacrifício, mas não buscava o encontro carnal com sua amada. Fazia simplesmente uma declaração, uma confissão de amor, fosse pelo gesto, pela amável conversa ou pelo simples olhar. A retribuição esperada era um ato de carinho, um reconhecimento do amor, nunca a entrega do corpo. Enquanto o amor cortês exaltava a mulher e a colocava num plano superior ao homem, o amor cavalheiresco a colocava numa atitude passiva, inferior ao homem e dependente de sua iniciativa. A Igreja repudiava todas essas formas de amor por ameaçarem a pureza do “amor conjugal”(cf. Vainfas, 1986, pp.55-56)
Segundo Macfarlane (1990), há muita controvérsia sobre a origem do amor romântico. Uma das localizações mais antigas para o seu surgimento é a Europa meridional nos séculos XI e XII. Segundo March Bloch, citado por Macfarlane, p. 336, o amor romântico começou com a tradição do “amor cortês” do sul da França. Inicialmente, esse “amor cortês” não tinha “nada a ver com o casamento, muito pelo contrário: opunha-se diretamente ao estado legal do casamento, uma vez que a amada era quase sempre uma mulher casada, e seu amante jamais o marido”. Mas esta “paixão absorvente, constantemente frustrada, presa fácil do ciúme e alimentada por suas próprias dificuldades” foi, no entanto, “uma concepção notavelmente original”, uma “idéia de relacionamento amoroso em que reconhecemos muitos elementos que hoje nos são familiares”.
Trevelyan, também citado por Macfarlane, p. 337, levanta uma questão importante: se o amor cortês está na origem da moderna concepção de amor, como teria passado de sua posição basicamente anticasamento para a de fundador do casamento? Ele acredita que essa revolução aconteceu na Inglaterra, na “gradual evolução da idéia e da prática de casamento”. Segundo Trevelyan, na Idade Média eram comuns os casamentos por amor entre os camponeses, uma vez que entre os pobres a escolha do casamento era provavelmente pouco influenciada por motivos econômicos. Nas camadas altas da sociedade, a situação começa a mudar a partir do século XV. Ao iniciar-se a “era de Shakespeare” a literatura e o drama tratam o amor mútuo como a base apropriada, ainda que não a única, do casamento.
O casamento por amor vai assim, lentamente, ascendendo na escala social até a era moderna, quando se estabelece como regra básica. A partir do século XVIII, quando o amor romântico se torna o ideal de casamento, o erotismo expulsa a reserva tradicional, mas introduz um outro aspecto importante: coloca à prova a duração do casamento. Como o amor-paixão em geral não dura, o amor conjugal ligado a ele também não dura. O divórcio então, coloca-se como uma possibilidade, não como forma de reparar o erro, mas como a sanção normal de um sentimento que não pode nem deve durar, e que deve dar lugar ao seguinte. Essa é uma das principais características do casamento moderno, diz Ariès (1987). Ao contrário do amor conjugal que aumentava com o tempo, o amor-paixão tende a acabar com o tempo. Esse é o grande desafio que os casais modernos enfrentam nos dias de hoje e que os leva a redefinir expectativas e idealizações sobre o casamento.


O Casamento Malthusiano
Mcfarlane (1990) denominou de casamento malthusiano o modelo de união conjugal que tem como premissas básicas o afeto, a amizade e o companheirismo entre os cônjuges e a procriação não é o objetivo principal do casamento.
Malthus, clérigo inglês que viveu na Inglaterra no século XVIII, expressou pela primeira vez sua preocupação com o casamento quando escreveu o “Ensaio sobre população” em que aponta a desigualdade da relação entre crescimento populacional e crescimento econômico. Com base nessa preocupação, propõe um sistema de casamento que privilegia a ética acumulativa, o desejo de ascensão social e o individualismo possessivo, valores fundamentais da ideologia burguesa. Esse sistema de casamento surgiu na Inglaterra na fase de ascensão do capitalismo (séculos XVIII e XIX) para dar impulso ao desenvolvimento econômico. Para prevenir o desequilíbrio entre o crescimento econômico e demográfico, Malthus propôs uma avaliação dos custos e benefícios do casamento, controle da natalidade e retardamento do casamento. Na visão malthusiana, a procriação deixa de ser a finalidade principal do casamento, e os propósitos econômicos e psicológicos do casal passam a ser os objetivos centrais. A ideologia do amor romântico é usada para justificar a ausência dos filhos. Como o casal se casa por amor, por escolha e decisão dos próprios cônjuges, o mais importante é a relação conjugal. Embora considerando o casamento por amor como a relação mais importante na vida de uma pessoa, Malthus o coloca como uma escolha racional sobre a qual a condição econômica pesa na decisão e na idade de casar. Dessa forma, a irracionalidade do amor romântico e da paixão sexual são domesticadas dentro do casamento, não mais ameaçando a racionalidade do capitalismo.
Para Malthus, na sociedade inglesa, uma sociedade civilizada e bem desenvolvida economicamente, pressão econômica e social se combinam - uma mistura de temor à pobreza, à perda do status, à perda do lazer e do prazer - e mantém os ricos afastados do casamento. O matrimônio era visto como algo que envolvia consideráveis custos econômicos e sociais que deveriam ser pesados contra suas vantagens. Algumas pessoas podiam até sacrificar suas carreiras e posições na vida para casar, mas isso implicava descer alguns degraus na escala social onde se encontravam. Casamento implica mais despesas e responsabilidades. É evidente o conflito entre o desejo de casar e a percepção racional dos riscos. Malthus acreditava que os indivíduos deveriam estar física e economicamente maduros para o casamento. Condenava o casamento antes da independência econômica.
As mudanças no casamento propostas por Malthus eram extremamente revolucionárias para a época. Ele propunha uma relação mais igualitária entre marido e mulher, quando na maioria das sociedades prevalecia a dominação masculina. O casamento centrado no vínculo conjugal, e não nos filhos ou na família, também era uma mudança radical. Ao valorizar o afeto, a amizade e o companheirismo, o casamento se tornava um refúgio dentro de um mundo competitivo e individualista.
Com o desenvolvimento do capitalismo, o modelo de casamento malthusiano se espalhou pelo mundo. Sofreu, é claro, as adaptações necessárias às diferentes culturas e níveis de desenvolvimento econômico. Na atualidade, muitas das suas características são encontradas nos casamentos ditos “modernos”, como a relação igualitária entre os parceiros, a valorização do companheirismo e da amizade na relação conjugal e a não-obrigatoriedade de procriação.


A Sexualidade na Era Moderna
A experiência sexual, como toda experiência humana, é produto de um complexo conjunto de processos sociais, culturais e históricos. A concepção moderna de sexualidade, segundo Foucault (1988), designa uma série de fenômenos que englobam tanto os mecanismos biológicos da reprodução como as variantes individuais e sociais do comportamento, a instauração de regras e normas apoiadas em instituições religiosas, judiciárias, pedagógicas e médicas, e também as mudanças no modo pelo qual os indivíduos são levados a dar sentido e valor à sua conduta, seus deveres, prazeres, sentimentos, sensações e sonhos. Sexualidade é, pois, uma construção social que engloba o conjunto dos efeitos produzidos nos corpos, nos comportamentos e nas relações sociais. Ao longo da história, a atividade sexual sempre foi objeto de preocupação moral e, como tal, submetida a dispositivos de controle das práticas e comportamentos sexuais. Como esses dispositivos são construídos com base nos valores e ideologias predominantes na sociedade, eles assumem formas diferentes à medida que a sociedade muda.
Para Foucault, a sociedade que se desenvolveu a partir do século XVII - sociedade burguesa, capitalista ou industrial - deu início a uma época de repressão à sexualidade não como proibição em si, mas através da incitação dos discursos. Essa sociedade não reagiu ao sexo como uma recusa em reconhecê-lo, ao contrário, instaurou todo um aparelho para produzir verdadeiros discursos sobre ele. Nessas sociedades, não somente se falou muito sobre sexo e se forçou todo mundo a falar dele, como também instituiu-se uma verdade regulada sobre a sexualidade.
Nos séculos XIX e XX, instituiu-se um discurso disciplinador para suprimir as formas de sexualidade não relacionadas com a reprodução e com o casamento como lugar legítimo da sexualidade. Através desses discursos, multiplicaram-se as condenações judiciárias das perversões menores, anexou-se a irregularidade sexual à doença mental: da infância à velhice foi definida uma norma de desenvolvimento sexual e cuidadosamente caracterizados todos os desvios possíveis; organizaram-se os controles pedagógicos e os tratamentos médicos. Até o século XVIII, o sexo lícito era restrito às relações matrimoniais e carregado de prescrições. Romper as regras do casamento ou procurar prazeres estranhos merecia a condenação moral e jurídica. As práticas sexuais fora do casamento - sexualidade das crianças, homossexuais, perversões, devaneios, obsessões, etc., eram consideradas “contra a natureza”. Os libertinos carregavam o estigma da “loucura moral”, neurose genital, desequilíbrio psicológico, etc.
No século XIX, os códigos de delitos sexuais se alteraram, e a justiça deu lugar à medicina. Aumentaram as instâncias de controle e vigilância instauradas pela pedagogia ou pela terapêutica. A medicina passou a interferir nos prazeres do casal, inventou toda uma patologia orgânica, funcional ou mental, originada nas práticas sexuais. O poder exercido pelos médicos e pedagogos voltou-se para o controle da sexualidade infantil, interdição do incesto e caça às sexualidades periféricas (sodomia, homossexualismo e outras perversões).
O exame médico, a investigação psiquiátrica, o relatório pedagógico e as condutas familiares têm como objetivo dizer não a todas as sexualidades errantes e improdutivas mas, na realidade, funcionam como mecanismos de dupla incitação: prazer e poder. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela e, por outro lado, prazer que se abrasa por ter que escapar a esse poder, fingir-lhe, enganá-lo ou travesti-lo. Poder que se deixa invadir pelo prazer que persegue e, diante dele, poder que se afirma no prazer de mostrar-se, de escandalizar ou de resistir. Captação e sedução; confronto e reforço recíprocos: pais e filhos, adulto e adolescente, educador e alunos, médico e doente e o psiquiatra com sua histérica e seus perversos, não cessaram de desempenhar esse papel desde o século XIX. Tais apelos, esquivas, incitações circulares não organizaram, em torno dos sexos e dos corpos, fronteiras a não serem ultrapassadas, e, sim, as perpétuas espirais de poder e prazer (Foucault, 1988, p. 45).
Nesse domínio, a sexualidade instituiu-se como um dispositivo de saber e poder. Tornou-se um campo de poder nas relações entre homens e mulheres, entre jovens e velhos, entre pais e filhos, entre educadores e alunos, entre padres e leigos, entre a administração e a população. Nas relações de poder, a sexualidade encontrou um ponto de apoio, de articulação às mais variadas estratégias de controle.
Foucault busca as razões pelas quais a sexualidade, longe de ser reprimida na sociedade contemporânea está, ao contrário, sendo suscitada. O dispositivo da sexualidade deve ser pensado a partir das técnicas de poder que lhe são contemporâneas. Para ele, três eixos constituem a sexualidade nas sociedades modernas: a formação dos saberes que a ela se referem; os sistemas de poder que regulam suas práticas e as formas pelas quais os indivíduos podem e devem se reconhecer como sujeitos dessa sexualidade.
Ao centrar a história da sexualidade nos mecanismos da repressão, Foucault considera duas rupturas:
Uma ocorreu no decorrer do século XVIII: nascimento das grandes proibições, valorização exclusiva da sexualidade adulta e matrimonial, imperativos de decência, esquiva obrigatória do corpo, contenção e pudores imperativos da linguagem. A outra ocorreu no século XX, momento em que os mecanismos da repressão teriam começado a se afrouxar; passar-se-ia das interdições sexuais imperiosas a uma relativa tolerância a propósito das relações pré-nupciais ou extra-matrimoniais; a desqualificação dos perversos teria sido atenuada e sua condenação pela lei, eliminada em parte; ter-se-iam eliminado, em grande parte, os tabus que pesavam sobre a sexualidade das crianças (Foucault, 1988, p. 109).
Os estudos de Foucault nos mostram, portanto, que a sexualidade, longe de ser um fenômeno natural, é, ao contrário, profundamente suscetível às influências sociais e culturais. É produto de forças sociais e históricas. É a sociedade e a cultura que designam se determinadas práticas sexuais são apropriadas ou não, morais ou imorais, saudáveis ou doentias. A história da nossa concepção de corpo e sexualidade é a história dos sistemas de valores fundamentais em cada sociedade.
A história da sexualidade vista como uma construção social aponta mudanças importantes tanto no comportamento sexual como no significado que lhe atribuímos. Por isso não se pode explicar suas formas e variações sem examinar o contexto em que se formaram. Isso nos permite entender, por exemplo, o significado da bissexualidade para os gregos e o pluralismo sexual do século XX. Para os gregos que idealizavam a beleza do corpo, não existia dois impulsos diferentes. O que permitia desejar um homem ou uma mulher era o simples apetite sexual que a natureza lhes havia despertado por seres humanos “belos” de qualquer sexo. No século XX, o pluralismo sexual, ao se desviar do paradigma cartesiano (mentalidade mecanicista, categorização normal/anormal), reinventa o corpo como uma forma de organismo social que abre caminho para a aceitação da diversidade como norma viável da cultura. “Se a natureza humana é histórica, cada indivíduo tem uma história diferente e, portanto, necessidades diferentes” (Highwater, 1992, p.155).

A Intimidade Transformada: Novas Formas de Relacionamento Amoroso
As mudanças que vêm acontecendo no amor, no casamento e na sexualidade ao longo da modernidade resultaram em transformações radicais na intimidade e na vida pessoal dos indivíduos. Nesse processo, a chamada revolução sexual e a emancipação feminina tiveram um papel fundamental. Esse tema é objeto de análise do sociólogo Anthony Giddens em “A transformação da Intimidade”(1993). Segundo ele, as novas formas de relacionamento que resultaram dessas mudanças têm como base a igualdade e os princípios democráticos. Para apreender essa realidade atual, Giddens lança mão de três categorias básicas : o amor confluente, a sexualidade plástica e o relacionamento puro.
O “amor confluente” é mais real que o amor romântico, porque não se pauta pelas identificações projetivas e fantasias de completude. Presume igualdade na relação nas trocas afetivas e no envolvimento emocional. O amor confluente introduz a ars erotica no cerne do relacionamento conjugal e transforma a realização do prazer sexual recíproco em um elemento-chave na manutenção ou dissolução do relacionamento. Desenvolve-se como um ideal em uma sociedade onde quase todos têm a oportunidade de se tornarem sexualmente realizados. Ao contrário do amor romântico, o amor confluente não é necessariamente monogâmico nem heterossexual.
A “sexualidade plástica” é uma sexualidade descentralizada, liberta das necessidades de reprodução. Tem origem na tendência à redução da família, iniciada no final do século XVIII, e desenvolve-se mais tarde com a difusão da contracepção moderna e das novas tecnologias reprodutivas. A emergência da “sexualidade plástica” é fundamental para a emancipação implícita no “relacionamento puro” assim como para a reivindicação da mulher ao prazer sexual.
O “relacionamento puro” é um relacionamento centrado no compromisso, na confiança e na intimidade. Implica em desenvolver uma história compartilhada em que cada um deve proporcionar ao outro, por palavras e atos, algum tipo de garantia de que o relacionamento deve ser mantido por um período indefinido. É um relacionamento diferente da idéia de casamento como uma “condição natural”, cuja durabilidade pode ser assumida como certa, exceto em algumas circunstâncias extremas. Uma característica do “relacionamento puro” é que ele pode ser terminado, mais ou menos à vontade, em qualquer época e por qualquer um dos parceiros. O compromisso é necessário para que um relacionamento tenha a probabilidade de durar, mas não evita que qualquer um que se comprometa sem reservas corra o risco de sofrer muito no futuro, no caso de o relacionamento vir a dissolver-se. Nesse tipo de relacionamento, o que conta é a própria relação, e a sua continuidade depende do nível de satisfação que cada uma das partes pode extrair da mesma.
As origens do “relacionamento puro”, diz Giddens, podem ser encontradas na ascensão do amor romântico, que criou a possibilidade de estabelecer um vínculo emocional durável. A diferença é que, embora o amor romântico suponha uma igualdade de envolvimento emocional entre duas pessoas, durante muito tempo as mulheres foram mais afetadas pelos seus ideais. Os sonhos do amor romântico conduziram muitas mulheres a uma severa sujeição doméstica. O ethos do amor romântico teve um impacto duplo sobre a situação das mulheres : além de ajudar a colocar as mulheres “em seu lugar” - o lar-, reforçou o compromisso com o “machismo” ativo e radical da sociedade moderna. Os ideais do amor romântico começaram a se fragmentar com a emancipação sexual e a autonomia femininas. O declínio do controle sexual dos homens sobre as mulheres colocou possibilidades reais de transformação da intimidade. Embora a intimidade possa ser opressiva se for encarada como uma exigência de relação emocional, ela pode, no entanto, surgir sob uma luz completamente diferente se considerada como uma negociação transacional de vínculos pessoais, estabelecida por iguais. “A intimidade implica uma total democratização do domínio interpessoal, de uma maneira plenamente compatível com a democracia na esfera pública” (Giddens, 1990, p.11).
Esse processo de “democratização das relações pessoais” afeta profundamente as representações e vivências do casamento. No contexto brasileiro, principalmente entre os segmentos médios urbanos mais intelectualizados, o casamento tradicional regido pela dominação masculina vem dando lugar a outra forma de casamento, onde a mulher reivindica igualdade e há uma constante negociação no relacionamento, conforme descrevemos em outros trabalhos (Araújo, 1993 e 1999). Nesse tipo de casamento, a intimidade tende a se reestruturar com base em novos valores, entre os quais amizade e companheirismo se colocam como fundamentais.
A transformação da intimidade passa necessariamente por uma análise de gênero. Os novos estudos nesse campo questionam a idéia predominante na literatura de que os homens têm mais problemas com a intimidade do que as mulheres. Como diz Giddens, a intimidade é acima de tudo uma questão de comunicação pessoal, com os outros e consigo mesmo, em um contexto de igualdade interpessoal. Nesse cenário, as mulheres tiveram um papel de revolucionárias emocionais da modernidade e prepararam o caminho para expansão da intimidade Algumas disposições psicológicas têm sido a condição e o resultado desse processo, assim como também as mudanças materiais e sociais que permitiram às mulheres reivindicar a igualdade e propor mudanças nas relações de gênero. Concordo com Giddens quando diz que as mulheres foram promotoras dessas mudanças, mas vale lembrar que elas não fizeram esse trabalho sozinhas. A construção de relações amorosas e sexuais mais democráticas e igualitárias dentro ou fora do casamento é uma conquista de homens e mulheres.
Tal conquista tem permitido o surgimento de outras formas de relacionamento amoroso, tanto no contexto heterossexual quanto fora dele. Vivemos hoje no signo da pluralidade. O casamento formal, heterossexual com fins de constituição da família, continua sendo uma referência e um valor importante, mas convive com outras formas relacionamento conjugal como as uniões consensuais, os casamentos sem filhos ou sem cohabitação, e também as uniões homossexuais. Nesse processo de transformação da intimidade, dos valores e das mentalidades, a tendência da sociedade é tornar-se cada vez mais flexível para acolher essas novas configurações das relações amorosas.


Referências bibliográficas

Araújo. M. de F. (1993) Família Igualitária ou Democrática? As transformações atuais da família no Brasil. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.         
Araújo. M de F.(1999) Casamento e Sexualidade. A revisão dos mitos na perspectiva de gênero. Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo.         
Ariès, P.(1987) O amor no casamento. Em Ariès, P. e Béjin, A.(Orgs) Sexualidades Ocidentais (pp.153-162). São Paulo: Brasiliense.         
Fladrin, J. L.(1987) A vida sexual dos casados na sociedade antiga. Em Ariès,P. Béjin.A.(Orgs) Sexualidades Ocidentais (pp.135-152). São Paulo: Brasiliense.         
Foucault,M.(1988) História da Sexualidade. A vontade de saber. Rio de Janeiro:Graal.        
Giddens, A. (1993)A transformação da Intimidade. Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo:Editora Unesp.         
Highwater, J. (1992) Mito e Sexualidade. São Paulo: Saraiva.         
Marx, K. e Engels, F. (1990) Manifesto do Partido Comunista. São Paulo:Global.         
Mcfarlane, A.(1990) História do Casamento e do Amor. São Paulo: Cia das Letras.         
Vainfas, R.(1986) Casamento, amor e desejo no ocidente cristão. São Paulo: Ática.
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Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932002000200009&script=sci_arttext